Redige habitualmente em latim, língua que não domina nem tão pouco conhece, artigos científicos que as revistas da especialidade teimam em não publicar. Para a TV7 DIAS e MARIA escreve artigos económicos. No tempo que lhe sobra escreve aqui.
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Jul 10

Quando se lançou na produção de móveis antigos Simão já levava uma longa carreira na área dos negócios falhados. No início dos anos 90, visionário como era, vendia porta a porta toques polifónicos para telemóvel. Tinha fé que um dia, quando chegassem os telemóveis, as operadoras os iriam vender sem toques e que ficaria tão rico que teria o dinheiro suficiente para abrir um quiosque só de revistas de caça, sonho roubado a um amigo que lhe roubara o sonho de criar a agência de viagens Marsans, assim como fazer aquela viagem a Lisboa de que os seus pais sempre falaram e nunca concretizaram. Apesar de falido por nunca ter vendido um toque nem acabado um só móvel por falta de madeira antiga estava à beira de concretizar um dos sonhos.

 

- Este homem padeceu de morte natural, disse o subinspector Correia à vasta plateia que o escutava.

 

- De morte natural? perguntou 50% da plateia, no caso o inspector Marques. Isto enquanto os outros 50% observavam a cena com curiosidade, nomeadamente o mendigo Tóni.

 

- Inspector, afaste para lá essa pequena multidão enquanto recolho as provas da cena do crime.

 

Olhando admirado em redor, e só observando o mendigo num raio de 50 mts o inspector viu-se na obrigação de acrescentar qualquer coisa à conversa.

 

- Este cheiro a vinho, casta Syrah reserva de 2006, que me inunda as narinas é seu Marques?

 

- 2007, corrigiu Marques enquanto retirava a vuvuzela espetada no coração do homem que jazia em cima dos cartões do mendigo.

 

- Você está embriagado? Insistiu o inspector.

 

- Claro que não meu inspector. Só um pouco tonto. Deve ser do calor.

 

- É que não há aqui multidão nenhuma, sou só eu e este pobre mendigo. Isto leva-me a questiona-lo se não estará a confundir uma morte natural com um crime hediondo perpetrado por este mendigo que tem as mãos manchadas de sangue.

 

- Inicialmente também me ocorreu essa ideia, mas pela forma como se deu o ataque cardíaco, veja pelo buraco da vuvuzela, o coração parou tão repentinamente que o indivíduo morreu naturalmente.

 

O mendigo Tóni assistia à cena impávido e sereno e não resistiu à tentação de participar na conversa.

 

- Não fui eu que espetei a vuvuzela no coração do Simão. Tirando o facto de ele me ter roubado o sonho do quiosque de revistas de caça, não tinha nada contra ele. Era o meu único bom amigo assim-assim.

 

- És um bom homem Tóni, acredito na tua mendicidade e nas dificuldades que ela te trouxe. Disse o subinspector Correia colocando a vuvuzela dentro dum saco de provas do Pingo Doce.

 

- Ele tinha o sonho dos pais, ir um dia a Lisboa. Disse Tóni enquanto questionava os polícias sobre aquelas coisas estranhas que se lhe vertiam dos olhos e lhe escorriam pela face.

 

- Estás apenas a chorar, reconfortou-o o Inspector Marques. Não é nada de mais.

 

- Foi isto que lhe provocou o ataque cardíaco, disse o subinspector Correia acenando com um bilhete para a carreira das 15H, Seixal-Lisboa, emitido pela agência Marsan de Alhos Vedros.


- Extraordinário, exclamou Tóni que já não utilizava uma palavra com tantas sílabas desde que tinha ido à Segurança Social no mês passado. Por isso ele estava tão estranho quando lhe espetei a vuvuzela no peito. Roubaram-lhe o sonho, coitado.

 


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