Redige habitualmente em latim, língua que não domina nem tão pouco conhece, artigos científicos que as revistas da especialidade teimam em não publicar. Para a TV7 DIAS e MARIA escreve artigos económicos. No tempo que lhe sobra escreve aqui.
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Mai 08
jls, às 23:27link do post | comentar

Carlos não sabe quem é. Nem tão pouco quem foi. Do passado recente e também do distante só tem algumas recordações, vagas e soltas. Amélia, sua mulher, diariamente lhe diz, antes de ele ir à consulta, que aconteça o que acontecer ele é, e sempre será, o Carlos dela.

Para ele isso pouco é, não se lembra dela. Associa a sua imagem a uma folha de papel que ela lhe entrega todos os dias, com os sítios onde ir, o que fazer e o que comer. Às vezes quando a sua cabeça não o atraiçoa ainda se lembra de pedir a alguém que lhe leia esse pequeno manual de instruções. As letras fazem-lhe confusão, dão-lhe dores de cabeça, já quanto aos números, há alguns soltos que lhe vagueiam pela cabeça. Associa-os a uma única frase EURIBOR mais 25%. COFIDIS, também lhe soa a familiar, ecoa-lhe uma vez por outra na cabeça.

À excepção de Amélia poucas pessoas sabem que Carlos sofre de amnésia psicogénica, um tipo raro de amnésia temporária provocado por um forte trauma. Aconteceu-lhe a ele como poderia acontecer a qualquer um de nós.

Um sábado, como tantos outros, Carlos foi ao quiosque da esquina comprar o jornal. No preciso momento em que o abandonava um autocarro da Vimeca surgiu na curva, atrasado certamente, pois pela velocidade e ranger dos pneus era deduzível. No mesmo momento um cão, ladrando, atravessou a estrada a correr. Apesar de estes dois vulgares factos nada terem em comum prenderam a atenção de Carlos que esbarrou frontalmente com um poste de electricidade e no chão ficou prostrado sem sentidos.

As primeiras testemunhas a chegar, entre as quais uma de Jeová, confirmaram que o Jornal estava aberto na página de economia, ao lado um grande anúncio da COFIDIS, publicitava varias modalidades de empréstimos com prestações à escolha. Como um azar, nunca vem só, uma das testemunhas, não a de Jeová, mas do acidente era funcionário da EDP e prontamente o denunciou. Carlos teria de pagar os danos no Poste.

Os médicos do INEM que 2 horas depois o socorreram, dizem que foi na ambulância que ele decidiu fazer o crédito. 500 Euros, contratados em 60 prestações de 18 Euros.

Dias depois, Carlos recuperou do trauma do poste, do trauma do crédito nunca mais.

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