Redige habitualmente em latim, língua que não domina nem tão pouco conhece, artigos científicos que as revistas da especialidade teimam em não publicar. Para a TV7 DIAS e MARIA escreve artigos económicos. No tempo que lhe sobra escreve aqui.
01
Fev 10
jls, às 12:12link do post | comentar | |

O primeiro que construí foi na escola primária. Ia do recreio até ao campo da bola. Ajudaram-me os gémeos Almeida e a Joaninha. Foi um projecto simples e executado dentro do prazo. Usamos o método invertido, o que mais aprecio. Colocamos as estacas de contenção onde apoiámos a cobertura e depois partimos para a escavação. Tivemos bom. Depois disso terei feito mais uns dez, talvez doze antes de chegar à secundária e me dedicar a construir pontes.

 

A minha mais emblemática ligava um salgueiro de grande porte ao quarto da Ana. Era linda e tinha uma rotunda imaginária a meio. Infelizmente o pai dela não gostou e um dia em que me encontrou no quarto com ela, calmamente lá me convenceu a abandonar o projecto. A caçadeira era daquelas antigas. Desmoralizado, até porque era minha primeira grande obra a ser alvo de criticas, vi nas moradias geminadas um futuro. Desenhava o projecto, scaneava-o e depois fazia invert. Vendia-os aos pares e segundo sei eram os filhos do construtor quando chegavam da escola que se entretinham a acaba-los.

 

Mas até na Serra das Minas e em Massamá Norte o espaço é limitado. O sms que recebi apenas dizia que na zona iam começar a construir em altura. A minha carreira descia a um ritmo mais vertiginoso que a do Hélder Postiga. Depois dos túneis, das pontes e das moradias pouco mais me restava. Ainda pensei ir para o Porto, para a escola da Madalena, estudar a ciência das rotundas ou especializar-me nas Antas em becos sem saída. Mas havia a barreira linguística.

 

E foi numa solarenga tarde de Junho enquanto acompanhava umas sardinhas à brasa que me lembrei de voltar aos túneis. Porque não inovar e construir-lhes uns estádios em cima? Se há engenheiros máximos que fazem pontes e só depois mandam os rios passar-lhes por baixo, se bem que esse Rio por ser torto não é grato na cidade, também eu lutaria pela minha oportunidade. Assim fiz mais dez.

 

E hoje é com profunda tristeza que pelas piores razões vejo as minhas obras de arte envoltas em polémicas, palcos de constantes agressões e casos. À ordem dos engenheiros já pedi a interdição de nele transitarem quadrúpedes e à liga de futebol animais. Agora não sei a quem me devo dirigir no caso do Fernando, do Hulk e do Sapunaru?


08
Jan 10
jls, às 12:50link do post | comentar | |

Eis o relato do trágico acidente no túnel da Luz.

 

Os radares acusaram o excesso de velocidade a que passaram os primeiros intervenientes e isso ficou registado na Liga. Uma hora e meia à deriva fizeram com que alguns, mais que alucinados, estivessem completamente perdidos e desvairados. Tinham acabado de ser cilindrados, ou como diria um indivíduo sediado acima dos carvalhos, comidos. Muitos deles, onze para ser mais preciso, ainda hoje procuram saber quem os atropelou naquela infernal noite.

 

Já lhes tinham dito que andar em Lisboa era complicado mas perdidos daquela maneira há muito que não lhes acontecia. No Porto não é assim. Entra-se na VCI, ali junto ao dragão, e depois é sempre em frente até sair no mesmo sítio. A estrada é sempre a mesma e por muitas voltas que se dê acaba-se sempre no mesmo local. Quando a coisa está complicada é pedir ajuda às autoridades que fecham os olhos às transgressões e a coisa lá continua pela via certa. Custa dinheiro mas resulta. Penalizações só para os de fora.

 

Mas voltando à Luz. Por essa hora o trânsito no túnel estava congestionado. Como em qualquer bicha que se preze há sempre um super herói que as fura e um romeno que o segue. O acidente, tal como provam os destroços, era inevitável. O super herói desgovernado e com o piso escorregadio chocou lateralmente com uma arvore de natal. O indivíduo que vinha a trás não tendo tempo de parar guinou bruscamente à direita, a ala que mais gosta de fazer no banco, e foi enfaixar-se na sua traseira. O super herói, tratado pelos seus e por quem não entende o futebol contemporâneo como o Incrível, tinha acabada de ser enfaixado mais uma vez pela traseira.

 

Destroçado, o super herói fez o que lhe competia. Partiu para a violência. No mundo dos super heróis, assim como no clube de Pilatos, há uma lei própria para resolver situações destas. Esquece-se a razão, a humildade e o bom senso e castiga-se fisicamente os infiéis. Está nas escrituras sagradas das antas e no livro do papa. Andrade que é Andrade, iluminado como é, é assim que resolve as coisas.

 

Mas voltemos ao acidente. Depois de agredir o prevaricador por ter ousado olha-lo nos olhos e cruzar-se no seu caminho, o super herói voltou para junto da pandilha onde outros seres esperavam ser soltos para libertar as energias que durante noventa minutos teimaram em não fluir dos seus inertes corpos. E assim encabeçados por Cebola, os “outros”, perdidos, foram procurar alguém em que bater não sabendo que era a si próprios que deviam bater, ou quanto muito e fazendo um favor ao mundo bater uns nos outros.

 

O laboratório das antas após o revisionamento da partida e o comportamento dos seus concluiu que o fenómeno que assolou o grupo “sem milhões” foi a banhada de bola que levaram. Infelizmente, e não o podendo admitir, como de costume, instruíram os iluminados comentadores na reunião das segundas a irem à capital profetizar a desgraça e a injustiça.

 

Apenas falta saber o que dirá a declaração hostil sobre o acidente. Ganharemos todos, certamente. Para já durante 3 meses seremos brindados com mais e melhor futebol, pois não haverá personagens de BD a povoar esse jogo que se quer de homens. Ganha o super herói pois ficará a ver o mundial comodamente instalado num belo sofá, longe de África. Por fim, ganha o mundo, que poderá ver a nova série trágico/cómica, na senda do “LOST”, o “PERSECUTE”. Perseguidos.


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