Redige habitualmente em latim, língua que não domina nem tão pouco conhece, artigos científicos que as revistas da especialidade teimam em não publicar. Para a TV7 DIAS e MARIA escreve artigos económicos. No tempo que lhe sobra escreve aqui.
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Jul 10
jls, às 23:36link do post | comentar | |

Quando se lançou na produção de móveis antigos Simão já levava uma longa carreira na área dos negócios falhados. No início dos anos 90, visionário como era, vendia porta a porta toques polifónicos para telemóvel. Tinha fé que um dia, quando chegassem os telemóveis, as operadoras os iriam vender sem toques e que ficaria tão rico que teria o dinheiro suficiente para abrir um quiosque só de revistas de caça, sonho roubado a um amigo que lhe roubara o sonho de criar a agência de viagens Marsans, assim como fazer aquela viagem a Lisboa de que os seus pais sempre falaram e nunca concretizaram. Apesar de falido por nunca ter vendido um toque nem acabado um só móvel por falta de madeira antiga estava à beira de concretizar um dos sonhos.

 

- Este homem padeceu de morte natural, disse o subinspector Correia à vasta plateia que o escutava.

 

- De morte natural? perguntou 50% da plateia, no caso o inspector Marques. Isto enquanto os outros 50% observavam a cena com curiosidade, nomeadamente o mendigo Tóni.

 

- Inspector, afaste para lá essa pequena multidão enquanto recolho as provas da cena do crime.

 

Olhando admirado em redor, e só observando o mendigo num raio de 50 mts o inspector viu-se na obrigação de acrescentar qualquer coisa à conversa.

 

- Este cheiro a vinho, casta Syrah reserva de 2006, que me inunda as narinas é seu Marques?

 

- 2007, corrigiu Marques enquanto retirava a vuvuzela espetada no coração do homem que jazia em cima dos cartões do mendigo.

 

- Você está embriagado? Insistiu o inspector.

 

- Claro que não meu inspector. Só um pouco tonto. Deve ser do calor.

 

- É que não há aqui multidão nenhuma, sou só eu e este pobre mendigo. Isto leva-me a questiona-lo se não estará a confundir uma morte natural com um crime hediondo perpetrado por este mendigo que tem as mãos manchadas de sangue.

 

- Inicialmente também me ocorreu essa ideia, mas pela forma como se deu o ataque cardíaco, veja pelo buraco da vuvuzela, o coração parou tão repentinamente que o indivíduo morreu naturalmente.

 

O mendigo Tóni assistia à cena impávido e sereno e não resistiu à tentação de participar na conversa.

 

- Não fui eu que espetei a vuvuzela no coração do Simão. Tirando o facto de ele me ter roubado o sonho do quiosque de revistas de caça, não tinha nada contra ele. Era o meu único bom amigo assim-assim.

 

- És um bom homem Tóni, acredito na tua mendicidade e nas dificuldades que ela te trouxe. Disse o subinspector Correia colocando a vuvuzela dentro dum saco de provas do Pingo Doce.

 

- Ele tinha o sonho dos pais, ir um dia a Lisboa. Disse Tóni enquanto questionava os polícias sobre aquelas coisas estranhas que se lhe vertiam dos olhos e lhe escorriam pela face.

 

- Estás apenas a chorar, reconfortou-o o Inspector Marques. Não é nada de mais.

 

- Foi isto que lhe provocou o ataque cardíaco, disse o subinspector Correia acenando com um bilhete para a carreira das 15H, Seixal-Lisboa, emitido pela agência Marsan de Alhos Vedros.


- Extraordinário, exclamou Tóni que já não utilizava uma palavra com tantas sílabas desde que tinha ido à Segurança Social no mês passado. Por isso ele estava tão estranho quando lhe espetei a vuvuzela no peito. Roubaram-lhe o sonho, coitado.

 


Sem qualquer sombra de dúvida, este é o texto que mais curti, neste blog! muito bom, mesmo.
bem haja!

novo post no blog da moda

big hug!
Maionese a 14 de Julho de 2010 às 00:22

Maionese,

Um grande bem haja para ti e vai aparecendo.

Abraço,

jls a 14 de Julho de 2010 às 15:16

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